VIVER OU MORRER, EIS A QUESTÃO
Um milagre na vida de D. Maria Antónia Esteves da Costa - porque de um verdadeiro milagre se tratou, disso não teve ninguém dúvidas - ocorreu, exactamente, enquanto estava à espera de vez no consultório médico, para tratar da credencial necessária à estadia nas termas.
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D. Antónia sentava-se na poltrona grande e descansava as suas dores em muitas almofadas: uma, rectangular, enrijava e endireitava as costas; duas, quadradas e pequenas, colocadas estrategicamente à direita e à esquerda, apoiavam os braços; uma outra, de cetim claro, era para a cabeça, de modo que, ao tocá-la com a face, sentisse a frescura do tecido. E nunca esquecia a almofada escura que colocava sobre um banquinho baixo de madeira onde assentava os pés, muito juntos e unidos.
E quando a empregada das limpezas, que vinha invariavelmente às segundas e quintas, depois do almoço, lhe perguntava: «Então, vai melhorzinha?», D. Antónia apertava mais a mão sobre a bengala castanha e respondia, sem mexer uma única fibra do rosto, que era gordo, de bochechas moles e descaídas: «Já não tenho melhoras». E acrescentava, após um silêncio breve: «Ficar entrevada numa cadeira de rodas e morrer para aqui sozinha vai ser o meu destino». A empregada enfiava a bata das limpezas e escapulia-se para a cozinha, arrastando com ruído os chinelos largos e repetindo: «Ora, ora, devemos ter sempre esperança...»
Mas nem sempre D. Antónia foi assim, dorida, solitária e infeliz. Pelo contrário, enquanto criou os dois filhos e o marido estava vivo, ela até era uma mulher de força e genica que levantava os móveis sozinha, sem ajudas, por ocasião das limpezas domésticas semestrais. E, para ajudar no orçamento familiar, anos a fio fez compridos serões em naperons e colchas de renda que vendia, à comissão, na retrosaria do senhor Lopes.
Tudo começou, sensivelmente, por altura dos casamentos dos filhos, ocorridos com poucos meses de intervalo um do outro. O marido ainda trabalhava nessa época e D. Antónia ficava longos dias em casa, sozinha, sem mais nada para fazer depois da casa arrumada e do espanejamento diário do pó. E foi no silêncio dessas infindáveis tardes que a voz - a princípio miúda e sumida, depois clara e mais forte - das suas dores se começou a fazer ouvir. Quando o marido chegava do trabalho ela não lhe dava descanso: «Vai-me ali buscar um copo de água e um comprimido. Dá-me aqui uma massagem nas costas. Aconchega-me aqui a roupa que eu estou sem forças.» O pobre lá ia porque D. Antónia, entretanto, tinha-se tornado autoritária e caprichosa e ele, só para não a ouvir, preferia condescender-lhe nas vontades.
Mas tudo piorou a seguir à morte do marido, que veio de repente, sem avisos, de um ataque de coração. D. Antónia passou então a consultar tudo quanto era médicos e a exigir aos filhos que a levassem, de carro, aos consultórios. E, quando estes, por motivos de trabalho, não arranjavam tempo nem disponibilidade para levar a mãe e a aconselhavam a chamar um taxi, sobrevinha então a D. Antónia um daqueles enormes e monstruosos ataques de dores que a levavam a meter-se na cama, de cabeça tapada, sem nada ver nem ouvir e recusando-se terminantemente a engolir o que quer que fosse.
Ah, como ela chorava nesses hibernamentos voluntários! Morrer, morrer era tudo quanto desejava! Pois para que queria ela viver assim, solitária e doente?... A filha mal lhe chegava à porta, enrolada com os três miúdos, eternamente ranhosos e constipados, o emprego e os transportes, sempre difíceis e morosos, sempre com bichas para lá e para cá. Bem que tinha avisado a filha e o genro para não comprarem casa num sítio daqueles, mas ninguém lhe tinha dado ouvidos... Pois era, ainda por cima com o marido que tinha arranjado - tinha-lhe saído cá um fraco e um doente aquele genro! - sempre de trombas e sem nunca ajudar a mulher em casa, tomara a filha dar conta da própria vida.
Quanto ao filho, vivia ali a dois quarteirões, era verdade, mas tinha uma vida tão ocupada, com o trabalho na empresa e o Mestrado que andava a tirar à noite... A nora, essa, é que tinha uma vida de princesa: em casa tinha empregada a tempo inteiro; na “boutique” de que era dona tinha duas raparigas a trabalhar e só lá ia para orientar o negócio. Mas a nora parecia que fazia de propósito, nunca lhe chegava perto. Quando D. Antónia se debruçava à janela, nos intervalos dos suspiros que lhe preenchiam os dias, bem a via passar ao volante do carro branco, para cima e para baixo... Ia ao cabeleireiro, ao dentista, buscar os meninos ao colégio, levar os meninos à ginástica, encontrar-se com as amigas, na casa da sogra é que nunca punha os pés.
A culpada de tudo era a nora! Parecia que estava a vê-la, sempre bem vestida e aperaltada, com aquela cintura fina que tinha e as ancas bamboleantes... Sim, porque ela bem lhe percebia as falinhas mansas. Daquela vez que tinha sugerido ao filho para a levar a almoçar aquele restaurante de Sintra, logo a nora se encostou ao marido, toda dengosa, Não te esqueças, querido, que domingo temos o encontro com a Bé e no domingo seguinte o almoço com os fornecedores.... E quando falou ao filho para lhe arranjar uma Parabólica como a que ele tinha em casa, para poder ver mais televisão - pois se era o único divertimento que lhe restava!... - a nora até tinha puxado o lenço para fingir que estava com tosse e disfarçar o riso. A culpada daquela vida triste que ela levava era a nora, não tinha dúvidas.
É verdade que tinha sido a nora a encorajá-la a ir para as termas, aliás até tinha levado o desvelo ao ponto de tratar de tudo, médico, papéis, estadia. Mas, bem a entendia: era para se ver livre da presença da sogra por uns tempos. Só podia ser isso. Aliás, quando tinha pedido ao filho que a fosse levar de carro às termas - e eram para cima de duzentos quilómetros, num sítio onde nunca tinha estado - logo a nora arranjou aquela do “auto-pullman” directo. Ainda a estava a ouvir: «É um autocarro de luxo com todas as comodidades, tem televisão, casa de banho, hospedeira para tudo o necessário e deixa-a à porta das termas.»
Bem, pelo menos tinha passado um tempo divertido nas termas. Havia de lá voltar no próximo Verão. E não estaria, por acaso, na altura de fazer a marcação e tratar de novo dos papéis? Tinha de ir ver ao calendário.
Acordada do torpor da hibernação pela urgente força de tal pensamento, D. Antónia saiu ligeira da cama, vestiu o robe e disparou para a cozinha. Que fomes que lhe davam quando melhorava! Apetecia-lhe comer tudo quanto tinha à frente. O médico bem lhe dizia que tinha de ter cuidado com o peso, por causa da coluna, mas ela queria lá saber, já era tão infeliz e sacrificada... Até nisso a nora tinha sorte, comia o que queria e estava sempre aquela elegância.
(continua)
anamar - 1989